quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Xekmat na Regata Santos Rio 2020

A ideia

Meu filho mais novo, Tiago, de 14 anos, inocente quanto ao esforço que seria essa regata, propôs a participação. Convidei meu grande amigo Riquinha, que topou de imediato, e mais ninguém. O desafio era esse de ir com tripulação miúda mesmo. Apesar de alguns amigos se candidatarem para tripulantes, descartamos esta possibilidade.


Previsão de tempo para o dia da largada 10 dias antes



Animados, preparamos e equipamos o veleiro Xekmat para a empreitada: Trocamos as adriças, examinamos minuciosamente cada detalhe, reforçamos as velas, fizemos uma buja, manutenção no motor…Caio ajudou nas costuras dos cabos e nas ideias. Por fim, nas vésperas de ir, subimos o barco para uma lixada na tinta velha do fundo do casco de modo a reduzir o arrasto.





Tiago instalando elásticos nos runners back stays



Embarcando as tralhas para a viagem




A ida para Santos

Partimos no percurso inverso do Rio para Santos no dia 20/10/2020 às 1010 horas. A largada seria dia 23.

O vento já soprava de leste há dias. Uma correnteza forte estava estabelecida a nosso favor (na ida).


Achamos uma âncora “boiando”!

Logo após a passagem pelas Ilhas Cagarras, um susto! O motor parou subitamente. Um cabo grosso enroscou na hélice. Com a proa do barco no vento mergulhei para uma checagem. 

O cabo passava pela frente da quilha com uma parte desfiada do chicote embolada na hélice que agora parecia com o Gulliver amarrado pelos Liliputianos: totalmente travada! 

A faca não fazia nem cosquinha naquele enrosco, portanto, busquei uma ponta solta e comecei a puxar. Com muito esforço, o pé apoiado na rabeta, mudando de bordo a cada mergulho, fui desenrolando até que a última volta se desfez. Com o cabo na mão, passei para o Riquinha antes que a deriva do barco esticasse contra o que vinha do fundo.

Recolhemos uns 30 metros de cabo até aparecer uma garatéia de vergalhão bem grande.




A âncora que achamos “boiando”




Tiago e os golfinhos





Grande timoneiro!




Pôr do sol rumo 270




Chegada no Guarujá




Chegamos em Santos às 1700 horas do dia 21, já nos preparando para arrumar o barco para a vistoria no dia seguinte.


Preparando para a largada

Entre os itens de segurança exigidos pelos organizadores restava uma pendência: Um tal registro de bloqueio de combustível no tanque. O registro eu já tinha comprado, mas faltavam as conexões da mangueira. Compramos as conexões e instalamos, arrumamos o barco, descansamos bastante, separamos roupas, agasalhos, cintos de segurança, lanternas, discutimos estratégias de regata, abastecemos de diesel e ficamos prontos para a vistoria. Depois de inspecionados e aprovados para largada, fomos nos arrumar para a festa de abertura. 







Os barcos no Iate Clube de Santos. 68 inscritos, 21 em nossa categoria (BRA-RGS). Um recorde!





No jantar de abertura




Desfile dos barcos antes da largada




A largada

Antes da largada houve um desfile dos barcos passando na frente do pier dos pescadores, em Santos. O desfile é uma ótima ideia que aproxima o público do evento. No estilo REFENO, um a um os barcos passavam entre boias de marcação na frente do público enquanto um locutor com auto-falante, no caso o Kadu do ICRJ, fazia um breve descritivo do barco e desejava uma boa regata.

Estávamos, como de costume, com o motor ligado em ritmo lento até a hora do tiro de preparação. Isso garante manobrabilidade para o barco quando “passeando” entre os outros próximo à linha de largada. Pouco antes da hora de desligar o motor parou sozinho! O tal registro “deu” entrada de ar! Não havia tempo para o reparo! Os menos entendidos podem estar perguntando - para que o motor numa regata a vela? Esclareço: O motor é usado durante a regata para carregar as baterias, desengrenado, claro! Sem ele fomos obrigados a racionar energia.


A regata: Ondas, vento e correnteza contra

Sabíamos da previsão do tempo e não nos assustamos com o vento, as ondas e a correnteza. Estávamos cientes de que não seria um passeio no parque.

Apesar de jovem, o Tiago é marinheiro safo. Herdou de mim a grande vantagem de não enjoar. Riquinha, com 67 anos, tem uma disposição incrível e a experiência de quem já completara 29 vezes a Santos Rio. Tenho confiança no barco, com o qual já velejo há 10 anos. Resultado: Estávamos prontos para o que desse e viesse.


No início ainda ficamos sentados na borda escorando com as pernas para fora (para sair na fotografia), mas ao escurecer esse esforço perdeu a importância. Não que ficássemos relaxados em sotavento, nunca, mas não fazia diferença o esforço e o cansaço de ficarmos molhados na borda. O Xekmat é incrivelmente seco dentro e fora.


Como nossa tripulação e barco são muito leves, optamos por ir mais próximo da costa fugindo da correnteza. Decisão acertada!


Como na fábula "A Lebre e a Tartaruga", no início, quando todos os barcos estavam com suas tripulações ativas nas bordas e nas tarefas, nós parecíamos estar ficando para trás. Depois que os outros barcos começaram a falhar e suas tripulações, na maioria, começaram a titubear, o Xekmat com sua pequena tripulação continuou andando.


A estratégia de ir próximo à costa funcionou: Já por dentro de Montão de Trigo velejamos com vento NE, enquanto aparentemente os que optaram por ir por fora, de Leste. Observando o andamento de alguns barcos que dispunham de transmissor de AIS, ficou clara a vantagem de ir encostado. Tivemos sorte de pegar uma correnteza fraca no Canal de São Sebastião até o terminal marítimo. Depois foi mais penoso romper a correnteza com o vento fraco, mas tivemos a recompensa de poder descansar sem as batidas violentas contra as ondas, jantar com direito a “sentar na mesa com um prato de lasanha quentinha”, entre outras mordomias... enquanto os que optaram a ir por fora relatavam verdadeiras tragédias e perrengues através do rádio VHF. 

52 cambadas depois saímos do canal com vento fresco lendo 090 na bússola. Opa! Rumo de casa!




Rastro do Xekmat no Canal de São Sebastião, ida e volta.




Próximo à Ponta da Joatinga o avanço era muito pequeno com as ondas e o vento uivando nos estais. Hora de se apegar e buscar a estratégia! Rumamos para dentro da Ilha Grande!


Por dentro da Ilha Grande pudemos mais uma vez experimentar um mar liso para descansar, cozinhar, trocar de roupa, enquanto os relatos de quebras e desistências reinavam no VHF. Geralmente a Ilha Grande faz sombra no vento Leste, mas desta vez teve um ventão afunilado por dentro da Ilha. Maravilha!




Pai e filho na volta passando pela Laje da Marambaia. A água da superfície do mar estava fria.





Desviamos da sombra da Ponta Grossa da Marambaia e seguimos próximos da praia da Restinga até Guaratiba. Com vento bom, fomos até um pouco depois das Ilhas Tijucas. Neste momento, ficamos empolgados escutando os barcos grandes da categoria RGS anunciando a proximidade da linha de chegada. Tínhamos chance de ganhar a regata!

Depois de 180 milhas estávamos a 10, no máximo 15 milhas dos grandes!


Lote em Ipanema

Foi aí que a sorte que havia nos acompanhado até então virou o jogo! Às 2000 horas o vento acabou e começou nosso sofrimento! 

Em linguajar da vela, “comprar um lote” significa ficar com o barco imóvel, sem vento. Um lote em Ipanema com vista para o Arpoador vale “um dinheiro”. No nosso caso, custou algumas posições na regata. Um péssimo investimento imobiliário!

Foi nessa hora também que “caiu meu disjuntor”: Sem vento, com as velas batendo violentamente a cada balanço do barco,  exausto com a privação de sono, sentei no fundo do cockpit e desmaiei por alguns minutos.


Felicidade é uma relação entre expectativa e conquista

Apesar de todo esforço, só cruzamos às 0305 da manhã de segunda-feira em quarto lugar.

Um tanto frustrados devido à empolgação de ter chegado tão perto da vitória, mas ao mesmo tempo felizes por termos chegado em segurança, o que era nossa expectativa.




Tiago na entrega de prêmios com o merecido troféu.











terça-feira, 13 de outubro de 2020

Regata comemorativa dos 100 anos do ICRJ

 Treino para a Regata Santos Rio com a tripulação confirmada, ventos fortes, ventos fracos... planada de balão... Tudo que tem direito!




quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Xekmat confirmado na edição 70 da Regata Santos Rio






 A tripulação intitulada de EQUIPE TWO AND A HALF MEN  é composta de Riquinha, Tiago e Roberto Bailly.

A largada será no dia 23/10/2020 em Santos - SP.

Será a primeira participação do Tiago em regatas oceânicas.

sábado, 18 de janeiro de 2020

Veleria raíz

Outro dia recebi de um amigo por WhatsApp um vídeo do processo de acabamento
de confecção de uma vela de barco à moda antiga. O Vídeo é do Hardanger
Maritime Centre and museum, uma das maiores redes de especialistas em
restauração de embarcações nos países nórdicos. Arte naval pura!


“Veleria raíz”, dizia o comentário do meu amigo.


Lembrei logo de Jack Wedekind!


Em 1986 eu parti para uma aventura nos Estados Unidos e lá arrumei emprego na
Wedekind Sails and Canvas CO, a veleria do Jack.


Jack, que nesta época já tinha mais de 50 anos de idade, cresceu no meio dos barcos
do norte de Long Island - NY. Mais tarde, como uma extensão de um fascínio já
estabelecido por veleiros clássicos, se aperfeiçoou nas técnicas tradicionais de “sailmaking”
numa veleria na Europa. No início da década de 70 montou sua própria veleria em
Port Jefferson - Long Island, lugar cheio de histórias e tradições da época da pesca
da baleia e da navegação a vela. 


  


Na veleria a maioria das velas que confeccionava-mos eram para barcos clássicos ou
de cruzeiro longo, muitos com casco de madeira ou aço. Alguns armados em Gaff Rig
com um enxoval extenso de velas. As vezes eram feitas de um dacron pesado marrom.
Na época esta era a cor ideal para aquelas tripulações que ficavam longos períodos
olhando para as velas dos barcos sem ofuscar ou cansar a vista com a grande reflexão
do habitual tecido branco. O acabamento das velas era rebuscado, repleto de costuras
a mão e couro. Um trabalho de artesão que conferia às velas um aspecto clássico antigo.


Um acabamento similar era conferido às capotas que, diferente do que acontecia aqui
no Brasil, eram valorizadas, feitas com técnica e orgulho.




Num canto da fábrica tinha uma bancada de veleria antiga, uma relíquia de 200 anos de idade.
Nesta bancada de madeira havia buracos de embutir ilhoses de vários tamanhos; os
batoques de madeira cônicos com os rebaixos para enfiar os ilhoses de latão; ferramentas
de costura em couro como agulhas, sewing palms e linha encerada; martelos de madeira;
alicates especiais e agulhas para costura em cabo. Uma caixa grande de madeira com
divisões guardava sem muita organização acessórios e insumos de veleria do passado
como garrunchos, argolas e ilhoses de latão. Uma volta ao tempo.


É claro que eu mergulhei fundo nisso tudo e por muito tempo achei que aquela cicatriz no
dedo indicador direto, resultado das inúmeras esticadas na linha encerada sempre no
mesmo ponto, seria permanente.


Jack dominava a arte como ninguém. Ele era chamado para apresentações em eventos
da tradição marinheira onde demonstrava exatamente estes processos do vídeo. Montava
um estande de exposição com a tal bancada, uma vela pesada antiga de tecido de algodão
grosso encerado, cabos trançados antigos e, vestido a caráter com roupas da época,
avental de couro, grandalhão, brancão, com barba e cabelo grisalhos, demonstrava a
trabalheira que dava para costurar a mão cabos trançados no tecido, punhos de couro
e toda uma gama de arte naval com habilidade incomum. Um gole de Rum de vez em
quando completava a caracterização.


Em 1989 o prédio no porto que abrigava a veleria foi vendido, obrigando Jack a mudar
para outro ponto em Port Jefferson Station. Com a mudança as encomendas ficaram
atrasadas então Jack me convidou para ajudar. Trabalhei por mais 4 meses neste ano
quando então o foco estava nas capotas, não mais nas velas. Mesmo assim, fizemos
um workshop da arte antiga de confecção de velas em Sag Harbor, leste de Long Island.
O evento comemorava os 200 anos da casa da alfândega local.




Registros fotográficos no meu álbum.


















Custom House em Sag Harbor


A Custom House fica ao lado do do museu histórico e da atividade baleeira.



Arte naval raíz!

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Desafios e conquistas



Morro do Pão de Açúcar do Mamanguá





Com os barcos fundeados na frente da entrada da trilha na Praia do Cruzeiro subimos

o Morro do Pão de Açúcar numa manhã ensolarada acompanhados da tripulação do

veleiro Lady Lou.















Cada um com seu desafio: Tiago subiu reclamando do esforço, sendo necessário

incentivá-lo a cada instante para que não desistisse. Ana Cláudia com seu medo de

altura ansiosa com a “hora da pedra” e eu preocupado com a descida.


É que por alguma razão que não sei explicar, na descida, quando geralmente a

sensação é de alívio, para mim é de suplício. Minhas pernas sofrem. Incrível!

Pode ser que isso tenha alguma relação com um grave acidente de moto que sofri

quando jovem, mas o fato é que para a maioria “para baixo todo santo ajuda”, mas

eu desço as trilhas gradativamente perdendo as forças até ficar com as pernas

bambas. Mesmo uma trilha fácil como a do Pão de Açúcar.


A trilha é realmente fácil. As raízes da mata fechada formam degraus perfeitos de

uma escadaria e os galhos servem como corrimão. Subimos descalços sem

problemas com os chinelos nas mãos para o caso da pedra estar quente.

Sem pressa, a não ser pelo Caio que, demonstrando sua disposição juvenil, foi

rápido na frente, em coisa de uma hora de caminhada tranquila, incluindo pequenas

pausas para descanso e hidratação, já estávamos lá no topo.


A sensação de atingir o cume é empolgante. Para Ana Cláudia uma vitória pessoal.

O medo de altura sempre foi para ela um impeditivo para curtir a paisagem de

lugares mais altos e algumas tentativas frustradas de subir o Costão da Praia de

Itacoatiara, uma pedra perto de casa bem mais baixa do que essa de Paraty,

comprovaram a intensidade do tormento.


Mas desta vez estávamos acompanhados de Andrea e Martine Grael. As duas

foram fantásticas e ajudaram Ana Cláudia a superar a fobia com técnica e

talento: Trabalhando carinhosamente detalhes como respiração e postura,

progressivamente ela foi sendo encorajada a enfrentar o medo e ir subindo.

Ao chegar no cume foi gradativamente passando por um processo de adaptação,

desfazendo-se do estado de alerta parecendo uma estrela do mar agarrada

firmemente à pedra, para uma reação equilibrada e, por fim, confortável quase

que como se estivesse na sala de casa. Super!


Que beleza começar o ano superando um desafio desse!













A estonteante vista é uma recompensa. De lá do alto dos quase 440 metros é possível

observar a geografia peculiar do Saco do Mamanguá, nosso único Fiorde Tropical, a

Reserva Ecológica Estadual da Juatinga com a exuberante vegetação da Mata Atlântica

e os gigantescos manguezais.


Os barcos fundeados lá embaixo pareciam menores ainda diante da imensidão em volta.






Na descida não foi nada diferente do que eu previa: Ana Cláudia e Tiago, felizes e

orgulhosos de terem superado seus próprios limites, foram me zoando enquanto eu,

com as pernas frouxas, como se com folga nas juntas, descia me agarrando aos

galhos da mata para não despencar de vez.


Mas a dor e a troça foram preço baixo a pagar pelo maravilhoso passeio

entre amigos e família e uma verdadeira pechincha contra a constatação do progresso

de Caio, que há poucos anos se arrastava aos prantos para fazer pequenas

caminhadas e agora faz sem esforço ou lamento; a conquista e alegria do Tiago te ter

concluído o desafio da subida e, sobretudo, a façanha de Ana Claúdia de ter ficado

de pé, poderosa sobre o topo do Mamanguá!

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

The love of sailing


 


Eu tenho este maravilhoso livro.

Fim do ano é hora de falar de amor. Então vamos falar de vela, afinal, nenhuma palavra melhor do que amor para expressar o quanto a vela significa para nós (para mim, no caso).

No final de semana passado tivemos aqui no Rio de Janeiro duas regatas, as últimas do ano. As duas em homenagem à amantes da vela.

Na de Sábado, do RYC - Sailing, a regata foi em homenagem ao Preben Schmidt. Seu amor pela vela permanece até hoje no coração de seus herdeiros.


O percurso é apropriado aos veleiros de oceano, sendo: largada na frente do clube, montar a Ilha da Mãe e a do Pai, ambas por BE e chegada na frente do clube.

Tradicionalmente nesta regata temos a família e amigos como tripulantes do Xekmat, o que aumenta o prazer da velejada. O programa por um todo é uma verdadeira celebração da vela, das famílias e dos amigos.

A de domingo foi a Regata Neptunos, essa do ICRJ em homenagem ao Dr. Sérgio Mirsky, comandante dos diversos veleiros “Neptunos”. Dr. Sérgio Mirsky amava a vela e, em especial, amava ter seu barco cruzando a linha de chegada em primeiro lugar no tempo real numa regata, a chamada fita azul.



O percurso também é dos bons, sendo: largada nas proximidades da Escola Naval, montar Ilha do Pai por BE, montar uma boia em frente à praia de Copacabana também por BE e chegada na Escola Naval.

Na Neptunos corri com dois dos meus filhos. Só nós três. Foi o máximo! Amei!

Na largada o vento estava forte para só nós três. Mesmo com apenas uma bujinha como vela de proa o Xekmat estava leve para tanto vento. Depois na boca da barra o vento ficou fraco para a buja. Trocamos a buja pela Genoa 1, a maior delas. A manobra é chamada de peeling de genoa. No Xekmat as velas de proa são de garrunchos, imagina a faina!

Primeiro a escota de barla é colocada na vela nova esticada a barlavento no convés, já com ponto regulado. Depois engarrunchamos a vela “nova” no estai entre dois garrunchos da buja. E o barco velejando normalmente... Então eu larguei a adriça enquanto cambava o barco. Os dois meninos foram arrancando os garrunchos da buja de forma intercalada, cada um em um, até que chegou a adriça que foi rapidamente transferida para a genoa. Tiago correu para o mastro para me ajudar com a subida da vela enquanto Caio trocava os punhos do pé. Pronto! Num instante de buja amurada a bombordo, no outro de genoa amurada a boreste!

Nessa altura já estávamos cansados de girar as catracas, mas valeu a pena a troca possibilitando recuperar um pouco o tempo perdido. Perto da Ilha do Pai veio um pouco de arrependimento com o vento acelerando novamente e ficando forte para a Genoa 1. Andamos com o barco desajeitado, adernado e levando a vela grande a passeio só panejando.

Depois da Ilha foi a hora da subida do balão. Um veleiro skipper 30 na nossa frente estava atravessando sem controle o que nos deixou apreensivos, mas estávamos convencidos de que daríamos conta. Decidi dar logo o jaibe, antes de subir o balão, na tentativa de ir direto para Copacabana.

* Jaibe e cambada: As duas manobras acontecem quando se faz passar a direção do vento de um bordo ao outro do veleiro. A diferença esta no sentido do vento: Na cambada o barco passa com a proa ao vento e chega no ângulo de velejar no bordo oposto. No Jaibe (Gybe em Inglês), o barco passa com a popa ao vento. Na prática a cambada é uma manobra mais simples, com as velas panejando (embandeirando) durante a manobra. No Jaibe é exigido uma maior coordenação e sincronia entre os movimentos do leme e as manobras das velas com a retranca passando subitamente de um bordo para o outro e qualquer vacilo pode ter um preço alto.

Com o balão em cima surfamos as ondas como uma flecha. Na hora do inevitável jaibe já não tinha mais tanta onda e foi tranquilo: Caio na proa, Tiago multi-tarefas com runners, amantilho, jaibe no grande e eu no leme e escotas.

No Xekmat sobra função: Tem muita coisa pra regular, muito cabo para caçar. Aquela macarronada de cabos no fundo do cockpit se não for organizada se junta num nó só.

Tiago foi o responsável pela faxina e fez sem descanso. A secretaria ficou toda sob responsabilidade dele e não houve falhas. Às vezes faltava força, mas o menino é safo, pede ajuda para uma catraca e resolve o problema! Caio está pronto. Faz tudo com calma e desenvoltura.

Mas foi na montagem da bóia em Copacabana que minha tripulação mostrou que sabe velejar: Combinamos que deveríamos fazer tudo com calma antecipadamente, já que estávamos mal na regata. Só que chegamos na bóia com retranca a direita junto com o Skipper 30. Juntos mesmo! Zero de distância. A empolgação bateu mais forte então mantivemos o balão em cima até o limite. Eles do outro veleiro de vela a esquerda, com direito de passagem sobre nós e nós de retranca a direita, tendo que dar um novo jaibe. A correnteza violenta tornava a proximidade com a boia de ferro ameaçadora. Subimos a genoa, tiramos o pau e o Caio ficou no papel de “homem pau” até o último momento. Não sei descrever como fizemos tudo ao mesmo tempo, só nós três, como se fossemos uma tripulação completa e treinada. Só sei que o mastro não caiu, o balão desceu, não batemos na boia e ainda ultrapassamos o Skipper 30 na manobra bem sucedida!

** Pau de spinnaker: Na vela balão (spinnaker) o punho ou extremidade de barlavento é mantido afastado do mastro pelo pau de spi. A outra extremidade deste "pau" é presa ao mastro.

Dali fomos até a Ilha Cotunduba com vento bom, numa orça folgada, arribando nas rajadas deixando para trás o Skipper 30. Caio trouxe a escota da genoa para a catraca de barlavento o que permitiu marear a genoa sem sair da escora.

Na sequência ainda voltamos a subir o balão depois de passar pela Cotunduba em outra manobra para quem sabe, não para quem quer: Havíamos descido o balão na montagem da bóia por boreste, bordo que no início da manobra estava a sotavento. Com o balão escondido atrás do grande é mais fácil e seguro de baixar. Demos o jaibe ainda com balão descendo, com o Tiago encarregado de enfurnar sozinho todo o pano, assim a vela ficou na cabine armada a boreste, ou seja, por barlavento. Não havia tempo de rodar! Caio então desceu na cabine e voltou abraçado com o balão todo contra o corpo e amparado pelo Tiago levou tudo para a proa, a barla mesmo, mas bem juntinho do bico de proa. Depois colocou o pau de spi no lugar. Arribei o barco até quase o ponto de jaibe enquanto caçava as escotas do balão. Com Tiago na adriça e Caio ajudando no mastro e uma leve orçada o balão abriu perfeito. Genoa embaixo entramos na baía junto com a maré enchente e, depois de um último jaibe já dentro da baía, fomos direto para a chegada ainda a tempo de ultrapassar o veleiro “No Brainer”.

Comemoramos com um abraço em família. Emocionante! Amo velejar!



segunda-feira, 18 de novembro de 2019

A longa pescaria

Desde muito cedo eu já era fascinado por barcos, em especial, é claro, por veleiros. Mas qualquer coisa relacionada ao assunto me despertava interesse. Com o tempo fui experimentando várias delas: vela, lancha, surf, esqui aquático, pesca de cais, pesca oceânica, mergulho… ficava na beira do cais do clube esperando um convite para uma saída de barco, preferencialmente num veleiro, mas podia ter alguém querendo praticar esqui aquático precisando de um piloto para a lancha, alguém para remar um bote até sei lá aonde… Eu estava ali disponível para o que der e viesse.


Com este espírito participei de uns campeonatos de pesca de oceano na lancha Penélope do ICB. Naquela época os peixes eram embarcados e levados para pesar no fim do dia. Muitos peixes enormes. Marlins de 300, 500 kg cada. Sailfish em abundância. Impressionante! O sailfish em formato elegante com hidrodinâmica para velocidade, colorido num azul metalizado com aquele bico e a vela que lhe dá o nome enquanto vivo é lindo. Perde a cor e a beleza ao morrer. Como num protesto fúnebre recolhe a vela e se veste de preto. O marlin, um monstro que demonstra sua enorme potência saltando da água e horas depois de preso pelo estômago se rende ao bicheiro. Foi um misto de emoções para mim.


Certa vez, a lancha ficou no meio de um cardume gigante de Dourados. A primeira vítima foi fisgada no corrico com vara, carretilha, anzol normal, isca... Esse foi mantido na água ao lado da lancha para manter os outros por perto. O cardume se estendia por todos os lados numa distância a perder de vista. Os peixes em frenesi atraídos por um caldo de sardinhas lançado ao mar mordiam qualquer coisa que passasse na frente, inclusive os anzóis sem nada, ou seja, sem isca! Para os pescadores era só puxar o bichão para dentro! Os grandes anzóis eram presos à uma linha curta com um toquinho de madeira na outra ponta para segurar equilibrado na mão com a linha entre os dedos e não tinham a farpela que normalmente impede o anzol de soltar, de modo que quando o peixe se debatia, já na praça de pesca da lancha, o aparato era automaticamente liberado para ser novamente jogado na água. Em pouco tempo a lancha, uma Carbrasmar de 41 pés, estava lotada de peixes. Assim como o sailfish, o dourado também faz seu protesto fúnebre, passando de um dourado incrível de lindo enquanto vivo para uma cor pálida e sem graça ao morrer.


José Francisco e os dourados da Lancha Penélope


Com esta cena de abundância na mente, quando eu já tinha uns vinte e poucos anos de idade, resolvi um dia sair para pescar no meu veleiro de oceano. Meu “navio” era um Cruiser 23' chamado Taai-Fung.

Me equipei para a matança com tudo de primeira qualidade emprestado pelos pescadores do clube. Além do equipamento, também tive ajuda com a escolha das melhores iscas, local de pesca e aulas de como manusear as sofisticadas carretilhas, como iscar o farnangaio no anzol e tudo mais.

O farnangaio é um peixinho tido como excelente isca para grandes peixes, e eu tinha alguns bem frescos para atrair os mais espertos. Também levei lulas e iscas artificiais diversas.


O Taai-Fung nesta época estava sem motor e como o local do pesqueiro indicado era bem longe, saí na tarde do dia anterior e já fui velejando até a praia de Itaipu onde fundeei para dormir ansioso com o dia seguinte. De madrugada, quando entrou o vento terral, levantei âncora e fui subindo junto à costa aproveitando o vento. Aqui no Rio de Janeiro a costa é na direção leste-oeste, então, quando dizemos que subimos a costa é na verdade no sentido de oeste para leste, nada para cima. Ao amanhecer já estava com as linhas na água em boa velocidade, com vento de nordeste e já na água clara, onde supostamente estariam os peixes.

O corrico é uma técnica de pesca aparentemente simples: o barco navega a uma determinada velocidade arrastando uma ou mais iscas. Estas imitam uma presa. Pronto! A complexidade está em acertar a velocidade, a distância da isca, o tipo da isca e o melhor local.

O Taai-fung não tinha motor, mas tinha um leme de vento, o que permitia que eu sozinho ajustasse as velas, pescasse, comesse e descansasse sem a obrigação de ficar no leme.
Eu mesmo construí o leme de vento utilizando eixo de roda de bicicleta, polias de madeira, tubos de alumínio e nylon de vela balão. Funcionava perfeitamente com o vento pela proa. Com o vento de popa e onda era necessário descer a vela grande e subir 2 velas de proa, uma para cada bordo, numa combinação confortável chamada de twin jibs. Mesmo assim, quando o barco muito leve descia numa onda o leme de vento vacilava.
Para quem não conhece vale explicar de forma simplificada que o leme de vento é uma espécie de piloto automático usado em veleiros que usa a força do vento para direcionar o barco.

Com o vento nordeste fui abrindo aos poucos da costa mesmo com o risco de encarar mais correnteza contrária. O importante era pescar!
Ao final da manhã o nordeste começou a rondar para leste empurrando o Taai-Fung mais pra fora ainda. E nada de peixes. A velejada, no entanto, era confortável. Aquele marzão azul em volta e o vento na medida certa, nem forte nem fraco. E o barco seguia seu rumo sem destino. De vez em quando trocava as iscas, regulava as velas, descascava uma laranja… e assim foi passando o dia. Eu lá no meu mundo desprovido de qualquer problema, exceto a falta de peixes.

No início da tarde o vento deu uma diminuída de intensidade e entrou de sueste. Prontamente cambei o barco e continuei orçando o que pude. Estava sob uma faixa de nuvens. Com o novo vento ficou melhor ainda. Já estava cansado de ficar com o pescoço virado para a esquerda. Com as marolas vindo diretamente contra o barco o avanço ficou mais confortável com menor balanço. E nada de peixes!

O sueste durou pouco e voltou para leste e a proa agora apontava para a Ilha de Cabo Frio, única parte de terra à vista. Já estava rebocando as iscas há horas, sem um destino certo, mas agora, com a proa na Ilha de Cabo Frio, ficou claro que era para Arraial do Cabo que eu deveria ir. E lá fui eu! Com o sol se pondo identifiquei a passagem do Boqueirão e comecei a velejar com mais “pressão” para chegar com luz do dia.

A entrada do boqueirão a vela nem sempre é fácil. Ventos e correntes não dão mole por lá. A passagem é funda e estreita, afunilando a correnteza e a altura dos morros em volta mudam a direção do vento. O plano B seria voltar para Niterói. Mas neste dia foi tranquilo e a preocupação da entrada deu lugar ao visual deslumbrante da praia da Ilha do Farol onde fundeei para passar a noite.

Exausto do longo dia, lampiões acesos, limpei e cortei as lulas em rodelas e comi as iscas no jantar. Uma delícia que os peixes recusaram.
O Taai-Fung tinha um fogão à álcool pressurizado que fazia um barulho peculiar guardado na minha memória. Também fui eu que fiz o fogão utilizando o bico doado por meu amigo Léo, uma chapa de aço inox, um barril de aço inox desses de máquina de refrigerante como reservatório do álcool e uma bomba de encher pneu de bicicleta para pressurizar o sistema. Tenho saudade deste fogão. As coisas mais simples são as que dão o maior prazer.

A tranquilidade da noite foi interrompida por um vento nordeste forte. Hora de zarpar!
Subi o grande rizado para facilitar a manobra. Com o grande inteiro o barco tinha dificuldade de manobrar, tendia muito para a orça. Com o grande reduzido o centro vélico se desloca para vante garantindo o controle. E lá fomos nós (eu e o barco) como uma flecha pelo boqueirão na madrugada escura. Dá um medo as vezes, mas só quando você tem tempo para isso. O inesperado, a escuridão, a solidão. A silhueta das pedras. Será que está perto? Um barulho diferente, o risco do jibe numa rajada… Lanterna que não acende, carta náutica dobrada difícil de identificar. Tensão total! Orça, arriba! Grito eu para mim mesmo.

 O convés salgado do dia anterior com o sereno da noite deixou tudo molhado. A carta náutica, as roupas que se esfregam no convés.
De vento em popa virei escravo do leme, no entanto o rumo era direto pra casa e a velocidade boa.
Agora estava mais para velejador do que para pescador e quando deu, já com o sol brilhando, as linhas foram colocadas na água com iscas artificiais. 

Para me livrar do leme orçava um pouco e acionava o leme de vento.
O nordeste foi dando lugar ao leste. Uma vela balão substituiu a asa de pombo e a ansiedade da chegada era maior a cada milha. Os pontos estimados eram marcados na carta náutica sem nenhuma precisão, mas numa frequência que tornava a posição segura. Com tudo a mão no cockpit fui passando rapidamente pelos lugares do dia anterior. Rápido em comparação com o dia anterior, é claro! Num 23 pés nunca é rápido!

E o dia se passou, cansativo, preso ao leme, e já não lembrava mais do objetivo da pesca quando, passando entre as ilhas Pai e Mãe, bem pertinho de casa, a carretilha cantou! Era um peixe espada. Um peixe fino, esguio, quase sem carne. E dos pequenos ainda por cima. Trouxe o coitado para dentro e com cuidado para não levar uma mordida, a cana de leme entre as pernas, devolvi o bicho para a água.

Ao chegar no clube um sócio me perguntou. E aí, foi a Itaipu? 
Sim, fui. Respondi. 
Tava bom lá? 
Tava ótimo. 
E diante das varas de pesca perguntou: Pescou alguma coisa?
Nada, mas dei uma ótima velejada!


O Taai-Fung e seu leme de vento (sem a vela), aqui na foto com motor de popa.